Algumas verdades, à velocidade do pensamento e na ordem em que me surgiram:
- Este blog é uma mixórdia de temáticas, bem à imagem dos interesses estilhaçados do autor.
- Nessa mesma linha de raciocínio, este blog não é puramente profissional/pessoal/... porque, como dizia o poeta maior, para se ser (não necessariamente grande; aqui não é, de todo, o caso) tem de se ser inteiro.
- Será que há alguma coisa mais bela do que acordar num sábado cinzento, com vento que ameaça chuva, ir passear com a minha filha à praia e ver o mar a ganhar os tons de azul dos olhos dela? Digam o que quiserem, eu acho que não.
- Depois de tanta beleza e apaziguamento, como é que os Sigur Ros ainda conseguem fazer isto? O meu eu inquieto agradece, rendido.
- Hoje ouvi uma notícia em que a dada altura se mencionou uma força de imposição de paz num qualquer país atormentado pela violência. Não vou comentar o alcance cínico do termo. Mas não posso deixar de pensar: será que estão a pensar projetar um concerto dos Sigur Ros lá? Se é esse o caso, aconselho esta atuação - pelo espírito, mensagem e música - em particular. Quem é que pode pensar em guerra quando esta banda está a tocar isto, num cenário destes e um cão passeia despreocupado por ali?
De acordo com o backoffice do serviços de blogs, este é o meu post nº 100.
Não tinha noção nenhuma deste número. Eu escrevo quando me apetece, sem nenhum plano editorial e, para ser sincero, nem sequer tenho ferramentas de análise para saber quem me lê, o que leem, de onde veem..
Para ser sincero, uma vez mais, estou-me nas tintas.
Mas como 100 é um número redondo, vou deixar aqui o texto mais bonito que li nos últimos tempos. É da autoria de José Luís Peixoto, mais concretamente do livro Abraço que, como é óbvio, recomendo.
E sem mais, aqui fica, para a posteridade.
Pai e filho
Sou o teu pai. Quando te seguro ao colo, entro no teu olhar, passo-te os dedos pelas faces e sinto que também eu tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Agora, enquanto dormes, escrevo-te e imagino que, num instante longe deste instante, chegará um dia em que tu serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Estas palavras são uma corda que une este momento presente e passado a esse momento futuro e presente. Daqui, desta ponta da corda, se der um pequeno puxão nas palavras, tu irás senti-lo aí. Se eu disser verdades, tens duas semanas, és pequenino, eu e a tua mãe amamos-te, tenho a certeza que irás sentir estas verdades aí. No entanto, hoje, aqui, eu não posso saber a maneira como irás sentir estas verdades, estes pequenos puxões, porque eu não sei tudo aquilo que irá acontecer entre este momento e o momento em que serás grande e segurarás uma folha escrita com estas palavras. Seguro numa ponta da corda, mas não sei o seu comprimento, a sua forma ou a sua resistência. Ainda assim, sei, imagino, que estás aí nessa ponta das palavras e quase que tenho vergonha de falar contigo. É difícil escolher palavras para falar com essa pessoa em que te tornaste. Ainda não conheço esse rosto que lê cada palavra deste meu embaraço. Além disso, tenho medo que estas palavras envelheçam mal ou que eu próprio envelheça mal. Talvez encontres aqui adjectivos que deixem de se usar. Talvez comeces a ler estas palavras e talvez, na tua ideia, eu seja alguma coisa que deixou de se usar. Irás olhar para aquilo em que me tornarei e tentarás entender aquilo que quis dizer-te hoje pelos significados que, nessa idade, tiver dado às palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. No dia em que leres estas palavras, saberás muitas coisas. Eu também já soube muitas coisas. Ser pai não é apenas saber, ser pai é compreender. Por isso, espero que possas reler estas palavras num dia em que sejas pai também. Eu, que sou o teu pai, tive um pai e tive um avô. Tão bem como eu sei que o meu pai era uma pessoa, quando fores pai, saberás que eu, aquele que hoje te escreve e aquele que há duas semanas começou a viver paralelo a ti, sou uma pessoa. De mim, espera amor e espera uma pessoa. Como as pessoas, às vezes, engano-me, não sei respostas, tenho medo, tenho frio, minto, faço coisas feias, desisto, escondo-me e fujo. Eu compreendo que tu irás enganar-te muitas vezes, não saberás respostas, terás medo, terás frio, mentirás, farás coisas feias, desistirás, esconder-te-ás e, quando todos te procurarem, terás fugido. Eu compreendo-te. Segurei-te ao colo, entrei no teu olhar. Foi há menos de uma hora. Passei-te os dedos pelas faces, tentando imaginar a forma como o teu rosto vai crescer. Estas palavras serão o espelho do teu rosto. O teu rosto ficará parado sobre elas. Gostava que soubesses que, hoje, quis tanto ver esse teu rosto que lê. Se puderes, passa agora os dedos pelas tuas faces. Talvez no dia em que leres estas linhas tenhamos deixado crescer entre nós o pudor de nos tocarmos com afecto simples e puro. Pai e filho. Por isso, passa os dedos pelas faces para sentires aquilo que sentiste hoje, duas semanas de vida, pequenino e amado. Ou então, chama-me para junto de ti. Na outra ponta destas palavras, serei outro. Terá passado tempo que, agora, não posso imaginar. Mas, nesse dia, quando chegar a estas palavras que me preparo para deixar agora, assim que olhar para elas, lembrar-me-ei daquilo que é estar a escrevê-las, ter trinta anos e estar a escrever enquanto tu, com duas semanas, estás a dormir. Será como se eu, hoje, fosse também filho desse eu que irá ler estas palavras. O rosto que tenho hoje estará dentro desse rosto que terei da mesma maneira que o teu rosto de criança estará também naquele de quando leres estas palavras. Filho, eu tenho trinta anos e sou o teu pai. Tu tens duas semanas, és pequenino, és querido, eu e a tua mãe amamos-te. Quando percebemos que estás feliz, ficamos felizes. Quando choras, ficamos inquietos e não paramos, fazemos tudo, fazemos tudo até ficares feliz de novo. Filho, eu tenho trinta anos, mas sinto que também tenho duas semanas porque uma parte de mim nasceu contigo há duas semanas. Estas são as palavras que quero dizer-te. Os seus significados são simples e não tenho medo de dizer que são puros porque são puros mesmo. Chama-me para junto de ti. Mostra-me estas palavras que escrevi hoje e pede-me para te passar os dedos pelas faces com o mesmo carinho e com a mesma ternura com que hoje toquei os teus contornos de menino. Tenho a certeza que não terei esquecido. Por mais que aconteça entre hoje e esse dia, por mais mortes e terramotos, tenho a certeza que não terei esquecido. E obriga-me a jurar que nunca deixaremos crescer entre nós um pudor que impeça de nos abraçarmos, de nos beijarmos, de passarmos os dedos pelas faces um do outro. Pai e filho. Eu sou o teu pai. Tu és o meu filho.
Uma prenda de anos favorita? Daquelas fúteis, dos sonhos e dos filmes?
Anotem nas vossas agendas: um concerto privado do sr. Tom Waits só para mim e para meia dúzia de amigos.
Isso é que era...
Para que fique registado, há imensas coisas que me chateiam. Mas a verdade é que uma grande parte delas chateia-me apenas porque não tenho pachorra para as alterar de forma a que me deixem de chatear.
E agora? Escrevo um livro acerca disso? Vou ao psiquiatra? Compro um cão? Escrevo um post com 300 parágrafos que se resume, tudo espremido, a camuflar a minha inércia? Vou correr sem destino? Vou às compras? Faço uma lista (se há coisa que me chateia a valer são listas... então aquelas com códigos cromáticos elaborados que exprimem prioridades nem se fala)? Compro um saco de boxe? Amuo? Disparato?
Claro que não, isso é ainda mais chato.
Há sempre uma coisa que se pode fazer. Pode-se sempre divergir. Investigar algo que nos intriga. Continuar a ler aquele livro que deixámos a meio porque a vida e as chatices que ela comporta se meteram no meio. Ir à praia. Ver o mar. Sentir a areia nos pés descalços.
E há sempre a característica mais desvalorizada da natureza humana: o esquecimento. O que seria de nós se não conseguíssemos esquecer? Se nos lembrássemos de tudo, especialmente o que nos chateia?
Isso sim, isso era uma chatice.
Neste post, numa entrevista fabulosa em 2006, há uma expressão usada pelo MEC que ficou gravada na minha memória. Essa expressão estava relacionada com o tempo. De acordo com o MEC, a mensagem de que "há tempo" devia ser passada, de forma incessante, aos Portugueses.
Este é um tema sensível. O tempo é a constante mais variável de qualquer vida.
Desde que fui pai, há cerca de um ano, a minha perspetiva e a minha forma de lidar com o tempo mudou radicalmente.
Desde o final do ano passado, tenho imensa pena do tempo que não consigo passar com a minha filha e, sobretudo, lamento o tempo que gasto a fazer coisas inúteis.
Desde o final do ano passado, não consigo deixar de pensar que o meu tempo só coincidirá com o dela por (demasiado) pouco tempo.
Desde o final do ano passado, também surgiram aspetos positivos desta minha relação com o tempo. De um modo geral considero que aprendi a gerir melhor o tempo, a não dar para peditórios inúteis e a separar o que é essencial do que é acessório.
A verdade é que a urgência do tempo parece-me ter ensinado a não contemporizar e a não perder muito tempo a dizer que não, que não tenho tempo. E, por outro lado, levou-me a dizer que sim, que todo o tempo é pouco para o pouco tempo que tenho e que, por isso, não tenho tempo a perder.
O que eu quero mesmo é que a expressão do MEC seja verdade. Quero muito que haja tempo. É essencial que haja tempo.
A escolha de hoje é sobre uma virtude em desuso, a discrição. A capacidade de ser modesto, de ser um excelente ator secundário, de contribuir, fora da luz de palco, através do trabalho em equipa.
Hoje em dia esta virtude não é, pura e simplesmente, valorizada. A excentricidade, a capacidade de entreter, a palhaçada idiota são muito mais atrativas do ponto de vista do imediato.
No limite, a ignorância e o constrangimento vendem mais mas vendem por pouco tempo. E, por isso, há um conjunto de scouters de novos palhaços sempre prontos a lançar mais um artista para a boca de cena do freakshow.
Eu tenho de confessar que gosto de pessoas discretas. E ontem, a propósito de um vídeo que partilhei no FB, lembrei-me de um excelente exemplo de um artista discreto mas fabuloso: o Jonny Greenwood.
Tem a exuberância do Thom Yorke? Não, não tem. Tem os skills do Jimi Hendrix ou do Jimmy Page? Provavelmente, não. Tem à vontade para ocupar a luz de palco? Nem sempre.
No entanto, é um artista em todo o sentido (e sentimento) da palavra. Aliás, basta ver alguns vídeos de atuações ao vivo e dar uma vista de olhos à lista de equipamento/instrumentos que ele utiliza para se exprimir enquanto artista para apenas sentir o dever de agradecer o facto de podermos experienciar os atos criativos em que ele participa.
Sempre de forma discreta mas sempre, sempre, fabulosa.
Ontem, via uma sugestão do João Afonso, voltei a ouvir os álbuns dos Black Keys que tenho no meu iTunes.
E, por isso, aqui fica uma feel good music que voltei a ouvir com prazer e que deixo para alegrar o dia de hoje!
Em suma, três Grandes: uma grande ideia (um projeto colaborativo que envolveu os fãs para construir o último vídeo do Johnny Cash), um grande músico e uma grande música. Respect!
Ontem tive mais um ensaio para a festa de natal da escola da minha filha. Ainda que não fosse necessário, comprovei, uma vez mais, a minha falta de talento para as artes performativas. Há uma barreira, difícil de ultrapassar, entre o que se sente e o que se exprime. No meu caso, essa barreira é opaca e densa.
O que eu gostava mesmo era de ter um talento assim (ver vídeo abaixo) e de dedicar um poema, com tanta força e todos os dias, à minha filha. Vou começar a praticar :)